Clubbing de Novembro este ano rimou com hip-hop numa métrica inesperada, multicultural e de braços abertos a outras músicas irmãs. Em ano Brasil para a Casa da Música, quis-se construir uma ponte virtual que cruzou por uma noite o Atlântico na ligação entre Portugal e o Brasil. Em palco, percebemos ao longo da noite, há um efeito de papel químico: seis músicos em palco (com convidados surpresa) na actuação de Marcelo D2 a abrir e as mesmas contas com Bezegol a fechar, desenhando logo ali uma efeito de simetria admirável. Depois as diferenças foram-se instalando em cada um dos lados, a seu tempo. Marcelo D2 corre para o samba, Bezegol para o reggae.
Foi com sala esgotada que Marcelo D2 e a sua banda entraram em palco para muita celebração e reconhecimento especial dos inúmeros brasileiros que marcaram presença na Casa da Música e que, desde cedo, encheram os corredores do edifício de um português doce e açucarado.
Marcelo
Maldonado (o D2 vem mesmo da maconha) não demorou muito a introduzir a arte do barulho que tanto apregoa, e disparou rimas em cima de riffs gordos, rock com laivos de psicadelismo e o samba que quis fundir com o rap desde cedo por saber das suas raízes.
Não demorou também muito para "Desabafo", o hit maior de Marcelo D2, plena de bom gosto na produção, fazer da Sala 2 da Casa da Música uma celebração em contraste com a melancolia da voz que repete por variadas vezes o desafogo "Deixa, deixa, deixa, eu dizer o que penso dessa vida, preciso demais desabafar". E soltou-se o samba. Para conseguir esse cruzamento tão saudável, Marcelo D2 conta ao vivo com uma banda absolutamente capaz de lhe entregar essas bases. Ver em palco um baixista com uma camisola de Ramones e um guitarrista com outra de Kraftwerk deixou desde logo boas impressões.
Com Fernandinho Beat Box (verdadeiro artista na arte que lhe dá nome) em constante e impressionante movimento, Marcelo D2 foi passeando por canções suas e, aproveitando a qualidade orgânica do hip-hop entregue em palco maioritariamente
live
, aproveitou para fazer o mapeamento da música popular brasileira, para "roubar" o riff antológico de "Seven Nation Army" dos White Stripes, para celebrar Prince e Michael Jackson (via "Billie Jean"), para dar espaço a Jorge Bem e Seu Jorge, para evocar Planet Hemp (banda em que Marcelo D2 militou) e até para soltar um cheirinho do genial Grandmaster Flash.
Numa noite em que passou a noite à procura da batida perfeita, Marcelo D2 acabou, perto do fim, por convidar mais de uma dezena de mulheres do público ao palco para confirmar aquilo que há muito tempo já se havia instalado: uma enorme festa.
A jogar em casa, Bezegol trouxe a lume - que o ambiente estava quente - o seu EP editado pela Optimus Discos,
Rude
, na companhia dos seus "tropas". O matarroense fez questão de marcar nas paredes do Optimus Clubbing a mestiçagem que é característica no seu trabalho e para isso contou com uma banda mais do que capaz nos teclados, na guitarra, no baixo e, sobretudo, com DJ Ride a assumir funções primordiais na altura de lançar as sementes para os cruzamentos pretendidos por Bezegol. Muito reggae, muito dub sem esquecer o rap, e talvez mais.
Com o avançar do concerto, a palete sonora foi-se alargando e ousou receber sons de uma guitarra portuguesa e, noutro momento, a guitarra lamentosa de Tó Trips em "Rude sentido", cruzamento dolente entre o reggae e o fado. Mas é em "Tempu" que está a génese criativa de Bezegol, em que este encontra o equilíbrio, nem 8 nem 80, para a intersecção desejada: palavras de ordem entregues de forma vigorosa com base na mensagem eminentemente positivam do reggae que, a fechar a noite da Sala 2, foi rei e senhor.
Texto de André Gomes
Fotos de Cristina Pinto Pinto
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Não estive lá ontem, nem vou estar em Dezembro, porque nunca gostei muito de Hercules & Love Affair, mas estou em pulgas para saber quem são os senhores que se seguem em 2010.
Posso dar algumas ideias?
Julian Plenti, Foals, The xx, Hot Chip, etc, etc
Cumps
eu nao conhecia mto o trab da cristina mas é mto bom e nunca monotono como certos fotografos, sempre chapa 5. continua assim cristina. o texto ta baril tb .
O concerto foi genial, se me é permitido fazer uma citação do próprio Marcelo, 'Espírito Samba, atitude Hip Hop', foi incrível.