É um mundo à beira do abismo o que os Massive Attack descrevem no concerto que ontem à noite trouxeram até ao Campo Pequeno, na primeira de duas noites de apresentações na sala de Lisboa. "Estivemos em Portugal muitas vezes e durante esse tempo muita coisa mudou", explicou 3D, aka Robert Del Naja, numa das suas prelecções ao público que praticamente esgotava a lotação disponível no Campo Pequeno. Os Massive Attack comandam um estranho e disseminado culto em Portugal - e quando convocam a presença dos seus seguidores, eles ocorrem em massa. Para eles, nada mudou.
O espectáculo com que os Massive Attack praticamente concluem a actual digressão - apesar de 3D ter garantido que não se lembrava de uma cidade melhor para o fazer, ainda há um show adicional listado na sua página myspace, em Winterthur, na Suíça - é, especula-se, o prenúncio definitivo que anuncia o quinto álbum que poderá receber o título
Hell Ego Land
, de acordo com alguns rumores.
Qualquer que seja o título, o que se pode concluir é que, a julgar pelo espectáculo de ontem e pelas canções novas que apresentaram, o ambiente a explorar será o de um planeta à beira do abismo - cultural, político, financeiro e ecológico. Esse tema é explorado de forma inteligente e eficaz no enorme painel de "leds" que serve de fundo visual ao espectáculo: símbolos corporativos, imagens em alto contraste, slogans políticos, frases de pensadores (revolucionários) como Che Guevara ou Thoreau, comunicações em Português que dão conta do apuramento da selecção portuguesa para o Mundial, do desejo de Simão regressar ao Benfica (yes!) ou da dificuldade da discussão do casamento gay no parlamento deixam claro que os Massive não dispensam o fórum instantâneo que criam em frente ao palco para comunicar as suas visões políticas.
Como é óbvio, e tendo em conta os aplausos selectivos do público, a maior parte das pessoas está mais sintonizada com a gratificação instantânea obtida durante a interpretação de alguns clássicos: "Angel", na voz de Horace Andy - "estivemos em Portugal muitas vezes e durante esse tempo muita coisa mudou", disse, como já referido, Del Naja, concluindo depois com a introdução do veterano da música jamaicana, "mas o nosso amor por este homem permanece" - ou temas como "Safe From Harm", "Teardrop" e até mesmo "Unfinished Sympathy" são despidos das intenções originais e colados às memórias individuais (e colectivas) das pessoas. "Adoro esta", ouvia-se nas bancadas quando se chegava a um destes "hits". O que quase sempre carrega a subentendida ideia de "e não ligo nenhuma às outras".
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Horace Andy, fiel voz convidada dos Massive Attack |
Antes dos Massive Attack subirem ao palco, coube a Martina Topley-Bird dar as boas vindas ao público. Acompanhada apenas por um baterista/percussionista/guitarrista vestido de guerreiro ninja, Martina assinou um belíssimo espectáculo que maximizou o seu talento com um mínimo de recursos: teclado, xilofone e sobretudo um sampler que usava em tempo real para criar harmonias com a sua própria voz foram mais do que suficientes para encher o palco de uma música feita de tranquilos abalos e de paisagens dramáticas e cinemáticas.
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Martina Topley-Bird actuou na primeira parte e deu voz a "Teardrop", entre outras |
Tal como os Massive Attack um par de horas mais tarde, também o seu concerto terminou com "Karmacoma", embora, no seu caso, na versão "Overcome", tal como gloriosamente apresentada nesse grande clássico que é
Maxinquaye
, o álbum de estreia de Tricky, onde a cantora se revelou ao mundo.
Martina, no seu vaporoso vestido vermelho (único assomo de cor num guarda-roupa essencialmente negro adoptado pelos restantes elementos que estiveram em palco), voltaria a subir ao palco com os Massive Attack (cantou, entre outras, "Teardrop"), tal como Horace Andy e ainda Deborah Miller, esta última para dar voz, por exemplo, a "Unfinished Sympathy".
3D e Daddy G cumpriram de forma intermitente os restantes encargos vocais, apesar de nenhum dos dois ser propriamente um cantor de recorte clássico (o caso de G é aí ainda mais sintomático). E se pouco cantam, os dois membros dos Massive que resistem à formação original ainda menos tocam. Não deixa de ser uma metáfora curiosa para a vertente live dos Massive Attack o facto de durante o maior clássico do grupo - "Unfinished Sympathy" -, só um dos membros originais estar em palco, para cumprir um singelo papel de DJ que introduz um excerto do tema original no arranjo escolhido para esse clássico.
A música dos Massive Attack evoluiu da criação em estúdio a partir de matéria alheia para a explosão em palco com recurso a músicos contratados que são, eles próprios, orquestrados como se tratassem de samples. Em "Marrakesh", um dos temas novos, essa abordagem é óbvia, sobretudo na épica conclusão que se estendeu por uma eternidade, com um órgão hipnótico a liderar as operações, enquanto 3D se agitava em êxtase, com a silhueta recortada perante o painel de "leds" que debitava motivos gráficos de inspiração árabe.
Temas do mais recente EP - "Splitting The Atom" - do próximo álbum e das várias fases da carreira - ouviram-se "Inertia Creeps", "Future Proof", "Safe From Harm" e, a concluir, "Karmacoma", por exemplo - pontuaram a passagem por material mais recente, este recebido de forma um pouco menos entusiástica.
Ao vivo, os Massive soam densos, negros, pesados e precisos. Uma máquina bem oleada que evoluiu em direcção a uma colagem perfeita entre o pulsar electrónico e um feel mais humano - mais rock, também - que é o resultado do compromisso. O público saiu de barriga cheia. E hoje a dose deverá ser repetida.
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Na primeira parte, Martina Topley-Bird |
Texto de
Rui Miguel Abreu
Fotos de:
Rita Carmo/Espanta Espíritos
tags: massive attack lisboa, massive attack campo pequeno, massive attack 2009, fotos concerto massive attack
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A razão é boa porque a expectativa é grande. "100th Window" (já lá vão 6 anos!) foi um retrocesso, a banda sonora de "Danny the Dog" uma falha, "Collected" só trazia um inédito, pelo que "Splitting the Atom" é das melhores coisinhas que fizeram nos últimos anos.
Mas a verdade é que muita coisa mudou desde então.
Os companheiros de Bristol Portishead levantaram muito a fasquia. "Third" veio mostrar que o trip-hop tinha acabado, mas que era possível sobreviver a isso e fazer melhor!! Ar armada dubstep "invadiu" entretanto o espaço da "música para o cérebro dançar" (adoro esta definição!!).
Aguardava-se então a reacção a isto tudo dos Massive Attack. E o problema é que "Splitting the Atom" ainda é muito descompensado. Por um lado, o tema título tem aquela batida minimalista e hipnotizadora completamente absorvente. Mas "Pray for Rain" só consegue entusiasmar pelo meio. Já a remix de "Psyche" está fantástica, mas "Bulletproof Love" já é um exercício sem grandes resultados.
Então ao vivo como é que isto tudo funciona?? Por enquanto ainda não muito bem. Se os clássicos ("Safe from Harm", "Unfinished Sympathy", "Risingson", "Inertia Creeps", "Angel", "Teardrop", "Karmacoma") continuam a ser largamente aplaudidos, os novos temas (talvez por serem desconhecidos da maioria) não cativam muito ao vivo. Principalmente "Psyche" com Martina que sem a vestimenta remixada, fica muito pobre!
De resto, os sempre bons Massive Attack a que já nos habituámos: excelentes os momentos de caos musical principalmente no trabalho com as guitarras em "Angel" e "Inertia Creeps", o espectáculo de luzes óptimo e as mensagens políticas mesmo a tocarem onde era preciso, sendo de realçar a comparação entre os gastos supérfluos dos deputados britânicos e as necessidades dos países sub-desenvolvidos (perfeito!), a chamada de atenção para Guantanamo e as citações acerca de liberdade (ok, confesso que já estava com saudades de um concerto em que alguém fosse inteligente a utilizar a parte visual!).
Quanto a Martina, por desconhecimento ou por vontade de ver os Massive Attack, o público não foi tão solícito quanto ela esperaria, nem mesmo quando ela ainda tentou um jogo de vozes com o público (que ficou mal conseguido, como é óbvio!). De resto, esteve bem, principalmente com um "Poison" muito bem conseguido!!
Depois na ajuda aos Massive, além de "Psyque", fez as vozes de "Teardrop" e de mais um inédito, mas sem muito entusiasmo. Talvez seja necessário mais tempo. Ou quem sabe, ir buscar Tricky ;)
Moral da história: os Massive Attack mantiveram-se na mesma linha do que mostravam até aqui. Excelente a parte cénica, continuam a portar-se muito bem nos clássicos, mas a verdade é que as novas músicas ainda não entraram no goto. E a culpa não foi só do desconhecimento do público. O fantasma "100th Window" ainda está atrás da porta...
Foi um bom concerto? Foi.
São estes os Massive Attack que quero? Ainda não.
Deve ter sido muito bom mesmo!
Mas Muse chama mais alto x)
P.S. quem me dera ir amanha
Pena que não vem cá ao Porto...
a martina sinceramente não me cativou, a voz dela não entrou bem na teardrop e a solo parecia um concerto no ccb. mas há que dar mérito aos massive attack, souberam voltar em grande.
p.s. - podiam acabar com as mensagens futebolisticas no placard. aquilo resulta muito mal e faz as pessoas aplaudirem o simão sabrosa em vez da prestação da banda.
"what the fuck is Lisbo ???"
concerto fenomenal!