Ao contrário do que, vá lá, metade das suas canções levam a crer, os Kings of Convenience são uns tipos bem-dispostos. Num momento estão a levar a lume brando canções que falam de relações à beira de um precipício e de gente que precisa urgentemente de ser salva, e de seguida estão a dançar à tonto ou a brincar como se amanhã fosse o último dia.
E foi com esse espírito que o atabalhoado Erlend Øye entrou em palco em cima de um carrinho de trabalho (dos que se encontram num backstage de um concerto, guiados pelo motorista residente) e em poses heróicas não para dar início ao concerto mas sim para apresentar a chilena que abriu a noite musical. E essa chilena chama-se Javiera Mena, na vida real faz electropop mas que em Braga quis mostrar o seu lado songwriter ao piano ou com a ajuda no baixo de um dos músicos dos Kings of Convenience. A formosura de algumas das suas canções não serviu para disfarçar a sua "verdura" mas deu para o aquecimento para a prova principal.
E a prova principal era um alinhamento capaz de deixar qualquer seguidor dos Kings of Convenience num estado de descontrolo emocional. Em cerca de hora e meia de concerto, os noruegueses Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe presentearam a sala repleta do Theatro Circo com mãos cheias de canções que reflectiram no toque e no timbre os dois lados dos Kings of Convenience: um mais pacato e reflectivo, outro despreocupado e celebratório.
Não fazem nada que já não tenhamos ouvido antes, é certo, mas fazem-no com uma certidão melódica e com uma frescura que por vezes se torna impossível não resistir aos seus encantos. E os seus encantos são muitos. A qualidade melíflua das suas vozes quando unas, as encruzilhadas que se geram naquelas duas guitarras irmãs (Eirik Glambek Bøe arranca primeiro e dá o corpo e Erlend Øye chega logo a seguir com os rendados e bordados), a situação melódica que faz da folk deles a nossa pop.
A primeira parte do concerto, apenas entre Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe , foi como estar a ouvir um disco deles no quarto - e isso é bom. Duas guitarras e duas vozes em pura confluência, passando por todos os discos que editaram até hoje - inclusive o mais recente, belissimamente intitulado
Declaration of Dependence
- e brilhando aqui e ali em canções como "Love Is No Big Truth", "I Don't Know What I Can Save You From" (que facilmente poderá resumir na inocência e na beleza o encanto dos KoC), "Singing Softly to Me" e a inevitável "Homesick", do disco que atirou os Kings of Convenience para o centro das atenções dos amantes da canções quietas e quase silentes,
Quiet Is The New Loud
. Com "Know-How" tornou-se óbvio: estes Kings of Convenience já tinham facilmente material para um "grandes êxitos" que existe já ainda que de forma virtual, na cabeça de muitos.
Depois de comparações entre Bergen - cidade natal dos noruegueses - e Braga e algumas tiradas demonstrativas de bom humor, chegou-se a uma segunda parte bem diferente da primeira: com um alemão e um italiano no palco para funções de violinista e contrabaixista - dois instrumentos tão presentes nas canções dos KoC - abriu-se espaço às canções que gostam e vivem do ar livre.
Aí, com uma satisfação que chegou até à última das cadeiras do Theatro Circo, Erlend Øye e Eirik Glambek Bøe levaram a dar um passeio canções como "Stay Out Of Trouble". E porque o ambiente se proporcionava, Erlend Øye convidou toda a gente a levantar-se das suas cadeiras e dançar e a coisa até ao fim não voltou a ser a mesma. Multiplicaram-se as palminhas, os refrões cantados, os flashes e os megabytes de vídeos e fotos para o disco duro lá de casa.
"Rule My World", do novo, mostrou que tem pernas para andar mas não as suficientes para apanhar "Misread", que, falsa-bossa, falsa-folk, fez e faz dançar o mais contrariado dos imóveis - ainda que essa dança possa ser uma dança interna, entenda-se. No encore uma semi-surpresa: "Corcovado" de Tom Jobim cantada por Eirik Glambek Bøe num português admirável. E uma não-surpresa: "I'd Rather Dance With You", uma das muitas formas de terminar com chave de ouro um concerto dos Kings of Convenience, que, mais do que convencerem, conquistaram mais um daqueles lugares cativos do público português. E é merecido: têm duas mãos cheias de grandes canções.
Texto de André Gomes
Fotos de Cristina Pinto Pinto
tags: kings of convenience portugal, concerto kings of convenience braga
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Deve ter sido fixe.
Grande reportagem. Parabens blitz por se terem deslocado até braga! Valeu cara ;)
Com as novas musica,que na Casa da Musica ninguém conhecia, mas agora a fazerem parte de muita gente nos seus leitores penso que tivemos um belo concerto, mais "trabalhado" do que na CdM, ou completo.
muito bom
Irei vê-los pela segunda vez, mas desta feita no Coliseu. Tenho a certeza que vai ser fantástico.
Para mim faltaram dois dos melhores temas deste novo álbum: Renegade e Freedom and it's Owner... mas saímos todos completamente deliciados e o saltinho a braga valeu a pena!
De salientar que dada a curiosidade do Erlend em saber de onde eram as pessoas que os estavam a escutar… ficamos todos a saber que a maioria era (como se esperava) da cidade do Porto.
Mas a escolha daquela sala é sempre bem vida dada a preciosa acústica, a meu ver melhor que a cM (porque também é bem mais pequena) e devido a ser dos teatros mais bonitos do país.
Quanto à Javiera Mena, quem não a conhecia pouco a ficou a conhecer a sua música dado o seu único álbum ter poucas semelhanças com o estilo com que se apresentou em Braga... Mas foi um Warm up feliz!
O texto acima do André Gomes está muito bom... em linha com a noite passada em Braga!