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Três Cantos: José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto no Campo Pequeno [texto + fotos]
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| Duas horas de paixão e partilha na primeira noite do espectáculo Três Cantos. Só canções, foram três dezenas... Saiba como correu o concerto. |
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Muita coisa mudou desde a primeira vez que José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto pisaram o mesmo palco - foi em 1974, um mês após a Revolução de Abril, e os concertos onde também José Afonso e Adriano Correia de Oliveira marcavam presença aconteciam em recintos como o actual Pavilhão Carlos Lopes, não numa reabilitada praça de touros com centro comercial nas imediações. Outras coisas, porém, mantêm-se inalteradas e, a adivinhar pela idade média daqueles que ontem encheram o Campo Pequeno, em Lisboa, muitos admiradores nunca abandonaram este trio de sobredotados, cujas carreiras se desenvolveram de forma plenamente autónoma, mas cuja raiz musical e ideológica continua suficientemente próxima para justificar noites especiais como a de ontem.
À entrada da sala, enquanto as câmaras registavam imagens e depoimentos para o DVD que há-de sair deste espectáculo, ouvimos a um espectador que acabava de se cruzar com amigos da sua geração: "Isto hoje é o Parque Jurássico!". E de facto o público maduro era mais numeroso do que o jovem, nas bancadas e na plateia do Campo Pequeno. Apesar de ruidosas queixas acerca do som, por parte dos que ficaram mais longe do palco, a rendição ao conceito Três Cantos seria total. Ao longo das duas horas de concerto - sem grandes pausas, se exceptuarmos as saídas previstas de alguns dos protagonistas da noite em certas canções - o povo esteve sempre do lado de José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto, que souberam retribuir com uma prestação generosa e inspirada.
Foi por volta das 21h45 que os cerca de 20 músicos que pisaram o palco do Campo Pequeno começaram a ocupar os seus lugares; para trás ficavam cinco meses de preparação, pela frente a equipa encarava a responsabilidade de estrear em grande um espectáculo que, nos próximos dias, repete nesta mesma sala e no Coliseu do Porto. "Guerra e Paz", de Sérgio Godinho, foi o primeiro passo numa longa e prazeirosa viagem; sentados de guitarra ao colo, os três homens da noite dividiram democraticamente a voz, num momento pausado, quase de aquecimento. À terceira música, contudo, já os ânimos se exaltavam com a chegada de "Como um Sonho Acordado", de Fausto, reconhecido aos primeiros segundos por uma plateia em êxtase. Apesar da grande quantidade de músicos em palco, esta e outras canções puderam respirar e expor o seu esqueleto, raras vezes afogado por instrumentação ou arranjos excessivos. Com bateria ribombante e o contraponto dos coros femininos, "Como Um Sonho Acordado" foi, a par de "O Primeiro Dia", "Ser Solidário", "Que Força É Essa" ou "Inquietação", um dos momentos que mais emocionaram o público.
Teria sido fácil transformar o conceito Três Cantos numa bajulação colectiva, suportada pelo estatuto dos três artistas em palco. Mas José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto souberam evitar a armadilha e foram especialmente económicos na chamada "troca de galhardetes"; aliás, só após o terceiro tema, "A Barca dos Amantes", José Mário Branco se dirigiu ao público para afiançar, com comoção e simplicidade: "Estou tão contente!". O entusiasmo era partilhado pelos muitos espectadores que, durante canções como "Eis Aqui o Agiota" ("Cada vez mais actual", apresentou Fausto), o clássico de Godinho "Casimiro (Cuidado com as Imitações)" ou "Mudam-se os Tempos Mudam-se As Vontades" não resistiam a entoar as letras, bater palmas ou marcar, alegremente, o ritmo dos temas com as mãos nos joelhos.
Tendo dividido com parcimónia o tempo de palco (cada músico teve direito a cantar sozinho, em dupla e em trio), os nossos heróis brilharam ainda quando, ao invés de uma "big band" atrás de si contaram apenas com a sua voz, guitarra e alma. Dedilhadas e contemplativas, "Não Canto Porque Sonho", de Fausto, ou "O Charlatão" de Sérgio Godinho foram dois exemplos desse "menos é mais" que tão bem resultou ontem à noite.
Tal como prometido, entre as 30 músicas do alinhamento houve espaço para um inédito - a frenética "Faz Parte (ou o Retorno das Audácias)" - e para uma versão de José Afonso, "De Não Saber o que se Espera". A primeira despedida chegou com "Maré Alta" e mereceu aos três bravos três cravos vermelhos entregues em mão. Mas foi no segundo encore que a euforia se instalou definitivamente e o Campo Pequeno em peso se levantou para participar na celebração em curso. Em palco, mais de 20 músicos munidos de bombos, baquetas e um adufe (ao colo de Sérgio Godinho) serviram um final catártico para o concerto, elevando "Na Ponta do Cabo", de Fausto, a ponto de exclamação de uma noite com poucas reticências. Mais poderoso do que mil efeitos especiais, o tema de
Crónicas da Terra Ardente
foi o remate perfeito para um concerto onde, mais do que a personalidade e os feitos individuais de cada músico, se celebrou o cancioneiro colectivo de José Mário Branco, Sérgio Godinho e Fausto, bem como uma certa ideia de música portuguesa - tradicional mas com os olhos postos no futuro, combativa, quando não interventiva, e sempre fiel a si mesma.
Texto de:
Lia Pereira
Fotos de:
Rita Carmo/Espanta Espíritos
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Vídeo inserido por
RCarmo
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Os mitos que compuseram obras como "Por Este Rio Acima", "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", "Pano Cru", "Os Sobreviventes", "Crónicas da Terra Ardente", "Ser Solidário", e tantas outras, afinal são de carne e osso! Vestem-se como nós e falam como nós.
Mas quando cantam para nós, o lugar do "mito" é de novo ocupado. Todos eles estão mais velhos do que na altura em que gravaram alguns dos seus melhores registos. Mas a profundeza continua lá. E o modo como tratam as Palavras também. Todos de forma diferente, todos de forma genial.
José Mário Branco continua a debitar cada Palavra como se fosse a última que lhe irá sair em vida. Aliás, como se aquela Palavra fosse a última que fosse dita no mundo! Mas no intervalo das Palavras, brinca. E move-se. E mexe os braços e o corpo e gesticula, vivendo todo o momento como e fosse o último!
Fausto, por seu turno, trata cada Palavra como se fosse de cristal: canta-a com uma suavidade e com uma leveza na voz como se aquela Palavra precisasse de carinho e de uma voz ternurenta. De forma tímida e por vezes incomodada por ver tamanho respeito por si e pelas suas Palavras.
Já Sérgio Godinho leva a Palavra a passear. E brinca com ela. Molda-a. Muda-a. Constrói-a e desconstrói-a. E olha para o lado esquerdo e direito comovido por ter ali aqueles dois homens do seu lado.
Num espectáculo que passou por "O Primeiro Dia", "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", "Como um Sonho Acordado", "Ser Solidário", "Se Tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)" ou "O Charlatão", a noite foi de homenagem.
Ora sozinhos, ora em duetos, ora ainda os três juntos, maravilharam uma audiência que ia desde ministros a músicos, de actores a produtores e do cidadão...comum! Que afinal somos todos nós que aplaudimos de pé cada ameaça de final de concerto. Que aplaudíamos com a maior força cada final de canção.
Melhor concerto do ano? Não sei. Nem me interessa. Quem quiser que entre em competições desse tipo, que este concerto não entra nessas contas. Porque isto não foi um "concerto", foi uma "OPORTUNIDADE" única de poder ver três dos músicos mais talentosos de sempre, que mais admiro e que me habituei a ouvir "ao longe" (em disco) a cantarem em conjunto escassos metros à minha frente.
E a emoção que vivi lá dentro é inexplicável e não tenho o talento que eles têm para pôr no papel aquilo que lhes vai na alma. Guardo para mim esses momentos, tentando partilhar aquilo que consigo.
Obrigado José Mário, Sérgio e Fausto!!
Eu quero o DVD.
JMB, Sérgio Godinho e Fausto...
... os maiores :) .
São 3 dos maiores cantautores do nosso país, com uma obra imensa.
Gosto particularmente (até porque conheço melhor) a obra do Fausto ( desde os clássicos "Ali está a Cidade", "O Barco Vai de Saída" e muitas mais, até ao disco "A preto e branco" inspirado na influência de Africa na vida de Fausto, tudo do melhor que foi feito na música portuguesa).
Sérgio Godinho...adoro. Simplesmente. Dos melhores letristas que temos, uma mão cheia de grandes canções...
A noite de ontem foi das coisas rara que acontecem no nosso panorama cultural / musical.
A oportunidade de ver 3 "históricos" da música nacional,no que seria sempre ( e, pelos vistos, foi) um bom espectáculo.
Cumps.
Como é bom saber que estão vivos e de boa saúde.
Mas passando à frente (e ao que realemente interessa)
Foi um bom concerto. Um concerto consistente...Destaque para os "pregos" do Fausto,penso que no "Charlatão", quando tentava tocar aquele instrumento cujo nome "disconheço" e não correu como esperava. Mais delicioso que isto foi o soluço de riso do José Mário Branco quando seguiu a canção. x)
Basicamente, teve um início energético e um final caoticamente inspirador.
Bom concerto. Não me arrependi (e orgulho-me bastante) de ter lá estado. Mesmo que não visse espectacularmente bem,sentia-se lindamente a atmosfera e os coros afinados do público nas canções mais conhecidos.
Cumprimentos,
Maria Inês
Sou uma enorme fã de Fausto, uma fã de Sérgio Godinho e, embora não aprecie particularmente, até porque não conheço tão bem a sua obra como a dos outros dois senhores, reconheço a importância do Zé Mario Branco para a música portuguesa.
Foi, seguramente, uma noite mágica.
Cumps.