Há muito tempo que Lisboa ansiava pelo regresso de Manel Cruz a uma sala de espectáculos. Se exceptuarmos uma passagem pela ZdB, em 2008, como convidado do projecto Tenaz, os últimos concertos, na capital, de um dos homens do norte mais acarinhados a sul haviam acontecido em 2005, a serviço dos Supernada, e em 2006 com os Pluto. Nos anos que entretanto se passaram, Manel Cruz pôs, por fim, de pé o badalado projecto Foge Foge Bandido, possivelmente o mais ambicioso e pessoal de um percurso a que não gosta de chamar carreira. Composto por largas dezenas de canções, interlúdios, desabafos e poemas,
O Amor Dá-me Tesão/Não Fui Eu que Estraguei
, disco-livro eleito como lançamento nacional de 2008 pelos leitores da BLITZ, é, enquanto obra e objecto, um episódio singular da música portuguesa dos últimos anos. Gravado em casa ao longo de dez anos, na companhia de amigos, família, animais domésticos, ilustres e anónimos, funciona tanto como enigma musical como testemunho de vida - do autor mas também daqueles que, desde os tempos dos Ornatos Violeta, foram acompanhando as suas mutações.
Ao vivo, o Foge Foge Bandido mostrara, em Fevereiro, alguma temida fragilidade. Comparado com essa apresentação, em Santa Maria da Feira, o espectáculo de ontem à noite, no Cinema São Jorge, ofereceu mais calor e entrosamento, com Manel Cruz e o seu quarteto a lidarem bem com a euforia do público e a saberem descontrair-se, música após música, até que, sensivelmente a meio da actuação, o ambiente entre banda e admiradores era já de grande celebração. Não faltou mesmo quem sussurrasse acertadamente boa parte das letras, proeza notável quando nos lembramos que são dezenas as composições de Foge Foge Bandido.
Musicalmente, Manel Cruz, acompanhado por Eduardo Silva, Nuno Mendes, Brendan Hemsworth e Alfredo Teixeira, mostrou boa parte das facetas que lhe correm nas veias: as canções gingonas e em modo "pouca terra", como "A Cisma", que abriu o espectáculo, a funky "Acorda Mulher" ou ainda "Eu Podia Estar Mais Perto", que os Pluto costumavam tocar ao vivo; a cadência blues e arrastada de "Não Aldrabes"; o psicadelismo peso-pluma de "Diz-me Se Aprovas", intercalado pela gravação de um monólogo sobre futebol que, no disco, leva o nome de "Terceira Divisão"; ou a melancolia mediterrânica que polvilha a belíssima "Meu Amor Está Perto" ou a dupla "Fechado para Obras/Dans Une Autre Vie Misérable", cantada a meias com Eduardo Silva.
Há também os arranques palrados e irónicos (a tirada final de "Ainda Pode Descer" valeu-lhe uma das muitas ovações da noite), algumas brincadeiras electrónicas e o registo onde, a nosso ver, Manel Cruz mais impressiona: o de trovador minimal, carregando com o mínimo de recursos e um parcimonioso uso do silêncio grandes e esqueléticas canções, como "Tempo Sem Mentira" ou "Falso Graal". Foi, de resto, este momento semi-burlesco, semi-sinistro que serviu de "separador" no concerto, dando corpo e confiança a um espectáculo que, por tentar transportar para o exterior um disco acima de tudo interior, continua a sofrer de algumas dores de parto.
Ansioso por entrar na festa, o público não largou por uma vez a mão da banda, levando Manel Cruz a repetir que a noite estava a ser "um prazer". Até ao final, os momentos altos sucederam-se: "Foi No Teu Amor", "Noções para Viver Sem Ti" ou "As Nossas Ideias" deram uma ideia fiel do que se passa no disco-livro do Bandido, que muitos aproveitaram para comprar, ontem mesmo, na banquinha de merchandising à porta da sala. Mas foi em "Canal Zero" (cujo refrão reza "
Foi na TV que aprendi a ser puta/estou tão feliz por não ter uma luta
"), na efémera "Mau Hálito" e no "hit" possível "Tirem o Macaco da Prisão", entre o saloon do Oeste e Sérgio Godinho, que o povo mais vibrou, mostrando ter as letras na ponta da língua e uma grande fidelidade ao rapaz que agora toca sentado, escondido por uma floresta de microfones e instrumentos.
O delírio prolongou-se no primeiro encore, com Manel Cruz a ser recebido qual herói de banda desenhada, por uma plateia em pé. Em troca, o São Jorge recebeu "Canção da Canção da Lua", que no disco é entoada por um coro de amigos e familiares do Bandido e, talvez por isso, ontem tenha emocionado os fãs, que se terão sentido como um prolongamento desse mesmo agregado... Como os aplausos não cessaram com o segundo adeus, ao som de "Sempre A Pensar", os cinco músicos voltariam para um derradeiro "bis", no qual tornaram a evitar a canção do disco com mais exposição radiofónica, "Borboleta" ("Não levem a mal, mas tem havido outras preferências", justificou-se Manel Cruz. "Um dia vamos acabar por tocá-la"). A eleita para a despedida foi antes "Ninguém É Quem Queria Ser", resignado mas optimista tema que soou como todos os melhores momentos desta noite: quente, humano, recompensador.
Poderá custar, a quem cresceu a ver os Ornatos Violeta ao vivo ou até a quem nunca teve essa sorte, que Manel Cruz tenha posto a hibernar a sua antiga persona de palco, expansiva e sensual, procurando agora os mistérios da exploração musical e contenção física. E sente-se que, em concerto, o Foge Foge Bandido ainda tem por onde crescer e ganhar asas. Mas ontem à noite, rodeado de teclados incansáveis, guitarras e banjo, melódica e harmónica, violino (um óptimo acrescento) e bateria certeira, Manel Cruz mereceu os aplausos de uma sala enamorada da sua criatividade e do seu universo.
Texto de Lia Pereira
Fotos de José Goulão
tags: manuel cruz lisboa
|
Vou tentar!
Já aqui elogiei milhares de vezes o Manuel Cruz. Já disse que faz parte dum Top3 imaginário que guardo cá dentro como sendo dos melhores letristas em actividade. É um estilo gingão, despreocupado, muitas das vezes caótico, mas sempre verdadeiramente sentido e muitas das vezes incrivelmente terra-a-terra.
Quando ouvi o projecto de Foge Foge Bandido (se calhar influenciado por mim mesmo) vi ali uma peça única na música portuguesa! Dissertações misturadas com poemas, sons e canções!! Mas durante o álbum, acho que não nos apercebemos de quantas boas canções existem lá dentro.
Em concerto, quando Manuel Cruz as começa a cantar, é que nos apercebemos: "xi...pois é! Esta é é muito fixe! E esta, já ne me lembrava! Muito boa! E ainda esta!!".
E chegamos ao fim, e sem nos apercebermos, ele passou praticamente 2 horas a cantar canções fantásticas!
Sempre "escondido" atrás da sua mesa de trabalho e de uma desarmante timidez, agradece quase de forma envergonhada ao público no intervalo das canções. Engana-se no início duma música e volta a repetir. De quando em vez responde às bocas do público. Mas a maioria das vezes está focado e concentrado como uma criança que tem brinquedo novo à sua frente!
Manuel Cruz é incrivelmente igual a nós. Humano. Daqueles músicos que é fácil imaginar a beber bejecas ao teu lado. E é isso que torna a sua música, por vezes surreal, tão terra-a-terra!!
O concerto foi magnífico, quente. Nos dois sentidos. Quer porque estava "um calor do caralho" (citação do público com resposta pronta de Manuel Cruz: "fala pouco e fala bem") quer porque a sala do S.Jorge recebeu com o maior carinho e admiração possíveis o Bandido!!
Acho que escrevi muito, mas não consegui dizer nada do que queria :p
Se calhar, vou-me ficar pelo "Muito Obrigado Manel!!!!"
P.S.: Pièce de résistance: à saída da sala estavam 2 ou 3 senhores da PSP. Será que estavam com medo que o Bandido fugisse??? ;)
tenho dito!
Dizia um amigo meu e bem, aquando do 2º encore: "O Manel já tá a dar 20 euros de concerto!"
1H40 de concerto, em que o Manel animou as hostes sem precisar duma "pré-banda" pró "warm up".
Quente já estava a malta antes de começar só com o entusiasmo de ver o Manel (e também com o calor da sala)!
Excelente apreciação do concerto :)
Mas no porto eh que bai serrr x)
Para o sr. Manel? Duas sílabas: ge-nial