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Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fotos] -
Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fotos]
Dez anos depois, o trio de Bristol regressa revisto e aumentado.
Com um concerto magistral ainda bem fresco na memória, apesar de terem passado praticamente dez anos sobre a edição do festival Sudoeste que ofereceu os Portishead a um público privilegiado, o público lisboeta respondeu esta noite em massa a um chamamento imperativo. Os Portishead estão de volta com um novo e muito esperado terceiro álbum e apresentaram-no de forma irrepreensível.

Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fotos] -


Um alinhamento equilibrado, que juntou oito excitantes novos temas a nove canções clássicas, serviu para matar saudades dos triunfais anos 90 e para experienciar a nova sonoridade do projecto de Geoff Barrow, Beth Gibbons e Adrian Utley. Acompanhada em palco por novos elementos, a banda provou estar viva e de muito boa saúde.

O concerto arranca com os dois primeiros temas de Third , o novo álbum. «Silence» irrompe da ausência de som com bateria cavalgante e deixa lentamente que a voz sofrida de Beth Gibbons se faça ouvir pela primeira vez. O público reage e não contesta, assistindo hipnotizado ao início de uma noite histórica. A paragem abrupta e a passagem para o ritmo cardíaco que assombra a esquizofrénica «Hunter» é bem recebida, mas só ao terceiro tema se ouve a primeira ovação da noite. «Mysterons» é repescado ao velhinho Dummy e veste-se de azul e roxo para se mostrar tão imaculado quanto há 14 anos atrás.

Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fotos] -


«The Rip», mais uma nova canção, abranda o ritmo e oferece um belíssimo diálogo entre a voz periclitante de Gibbons e a guitarra acústica. É aqui que se percebe bem que a genialidade do trio britânico continua intacta e envolta na mesma aura de secretismo de sempre. A viagem ao passado é retomada com «Glory Box», que aparece entre fumos e luzes quentes. O público responde em coro com as vozes bem apontadas para uma Beth Gibbons forte de tão frágil. Os ritmos ácidos de «Numb», single com que os Portishead se apresentaram ao mundo, deixam o coliseu em hipnose sedutoramente dançada.

De volta ao presente, «Magic Doors» mostra a força que a bateria ganhou na nova sonoridade da banda. Os lamentos encantatórios de Gibbons rebentam em teclas com efeitos de tempestade e a rendição é agora total. O momento alto do concerto estava no entanto a chegar. «Wandering Star» é oferecida em ambiente soturno e despido, com uma solenidade e tensão que não se adivinham no original de estúdio. O público respeita ordeiramente o momento.

Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fotos] -


O registo alarmante do excelente novo single, «Machine Gun», acorda tudo e todos de um transe que momentos antes se tinha imposto. A percussão gigante permite que a voz vá irrompendo por entre batidas. Aplausos em catadupa. Segue-se a sequência mais excitante da noite. A acústica da sala lisboeta, particularmente feliz, permite absorver da melhor forma a solenidade de «Over», a grandeza de «Sour Times» (agora menos densa ao vivo que no passado) e as ambiências cinematográficas de «Only You».

«Nylon Smile» prova mais uma vez a eficiência das novas canções e a despedida antes do encore faz-se ao som de «Cowboys», cujo poder cresceu com o tempo de repouso. Antes de sair de palco, Beth Gibbons agradece e o público começa de imediato a pedir mais.

Antes do regresso, ouvem-se comentários bem elogiosos tanto aos novos temas como a uma cantora «sem idade», que «parece sempre igual». Ouve-se também que faltam cartazes a dizer «Beth casa comigo»... E eis a banda de novo em palco. «Threads» vai rastejando de mansinho até a cantora soltar todo o poder da sua voz num excelente exercício vocal. A transfiguração explosiva de uma figura que parece sempre ir despedaçar-se em mil pedaços arranca gritos exultantes de uma audiência ao rubro.

Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fotos] -


«Roads» era o momento que faltava ir repescar ao passado. Afirma-se hoje ainda como uma das canções mais belas de sempre e o público aproveita-a na ponta da língua. Seria momento de terminar, mas a banda acaba por surpreender de forma festiva com uma versão bem gingante de «We Carry On». Depois de terminada a sua função, Beth Gibbons desce ao fosso para cumprimentar o público, abandonando uma verdadeira orgia sonora em palco.

Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fotos] -


Avaliando por uma noite cravejada de bons momentos, os Portishead do século XXI prometem ser tão válidos em palco quanto aqueles que abandonaram a ribalta há dez anos atrás. O concerto do Sudoeste será sempre uma memória feliz, mas a noite de hoje tem já também lugar assegurado no baú de recordações.

Alinhamento

Silence
Hunter
Mysterons
The Rip
Glory Box
Numb
Magic Doors
Wandering Star
Machine Gun
Over
Sour Times
Only You
Nylon Smile
Cowboys
______________

Threads
Roads
We Carry On

Na primeira parte estiveram os Hawk and a Hacksaw. A dupla de Jeremy Barnes e Heather Trost, dois americanos de Albuquerque, no Novo México, assentou recentemente arraiais na Hungria – e a migração tê-los-á ajudado a aprofundar ainda mais a música que fazem da matriz da folk da Europa de Leste que os vem inspirando.

Apesar dos poucos pontos de contacto com os reis da noite, a banda que os Portishead convidaram a tocar no festival ATP convenceu a plateia, sobretudo quando ao acordeão de Jeremy Barnes e ao violino de Heather Trost se juntava o bombo, também operado por Barnes, e os vários instrumentos de cordas e sopros a cargo dos dois músicos (um inglês, outro húngaro) que actualmente acompanham os Hawk and a Hacksaw.

Em pouco mais de meia hora, os amigos de Zach «Beirut» Condon, projecto que em Julho passará pelo mesmo palco, provaram que a Europa de Leste é mesmo onde o homem quiser.

Texto de: Mário Rui Vieira
Fotos de: Espanta Espíritos

MRV, Sexta, 28 de Março de 2008 às 2:29



Vídeo inserido por MRV Sexta, 28 de Março de 2008 às 2:29 (93 comentários )
81 Comentários
ordenar por:
mais votados ▼
Rescaldo Portishead
por: Javali | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 5:02, 11 pontos
Bendito dinheiro capaz de pagar o bilhete para assistir a tal espectáculo...Deus existe, e acontece na voz de Beth Gibbons...Olhando para a cara daqueles que me rodeavam conseguia ver o espanto e o encantamento de todos eles, irrepetitível, memorável...sei lá...inqualificável! Obrigado coliseu, obrigado EiN...!Numa palavra, perfeito, sei lá...!No fim ficou a luz acesa, o recinto a esvaziar-se a nostalgia que me percorreu do início ao fim do concerto!
Portishead no Coliseu de Lisboa???
por: wolfheart74 | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 17:37, 8 pontos
E o concerto do Porto? Ninguem escreveu nada sobre ele, eu sou de Lisboa mas não fui a nenhum deles, mas sinceramente acho uma falta de mau gosto ignorar o concerto do Porto! Sem palavras...
"The show must go on..."
Re: Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fo
por: blue.orchid | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 10:30, 7 pontos
Foi simplesmente dos concertos mais maravilhosos que eu ja vi. Foi magico, desde o inicio ao fim, tinha a sensaçao que era so' eu e os Portishead, que nao havia mais ninguem ali. E no fim a Beth abraçou-me! :D Lindo, lindo, lindo.
Re: Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fo
por: TrentReznor | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 20:06, 6 pontos
Eu estava sem palavras no final do concerto! A Beth não falhou uma, e ainda teve a humildade de pedir desculpa pelos enganos (QUAIS?)! É uma senhora com S grande! A forma como se dirigiu ao publico... Não se dirigiu a nós para ser vista mas sim para nos olhar nos olhos e cumprimentar cada um de nós! Foi unico o momento em que ela me deu as duas mãos e acredito que para as outras pessoas que a cumprimentaram também tenha sido! Além da Beth, todos os músicos estiveram perfeitos, sem falhas! O senhor do scrath tambem não falhou e aquilo não e propriamente fácil de se fazer! Toda a banda esteve ao melhor nivel! Tanta gente que queria assistir ao concerto, tanta espectativa... Mas da minha parte espectativa alguma poderia prever o que se passou ali... Foi mágico... Perfeito... Sem palavras...
Arrepiante!
por: Balanced | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 11:40, 4 pontos
Um dos melhores concertos que já vi até hoje! Sem dúvida alguma.
Dez anos depois, entrei novamente, noutra dimensão, num mundo tão denso que arrepia só de pensar!
Tal como no Sudoeste, saí do coliseu embevecido pela genialidade dos Portishead e pelo público maravilhoso que é o público Português.
Re: Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fo
por: kenji | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 12:58, 4 pontos
Sabia que me ia arrepender.
Re: Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fo
por: RitzPritchard | siga este autor | enviar mensagem privada Domingo, 30 de Março de 2008 às 0:12, 4 pontos
Desculpem me maaaaaasssss a senhora tem muitos pelos nos braços!
Re: Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fo
por: robert's mission | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 8:04, 3 pontos
We Carry On deve ter sido uma coisa espectacular e ainda mais como última música. Aquela guitarra desenfreada que aparece por 2\3 vezes ao longo da música dá-lhe uma finâmica tão...enfim...mais tarde hei-de lamentar-me por ter perdido estes dois conertos. Ter perdido a glória do passado e o sucesso do presente. Espero que voltem :')

http://cinemusicarttrip.b...
Nostalgia
por: Zephirus | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 10:03, 3 pontos
Excelente concerto, a Sra Gibbons esteve no seu auge, a banda com maturidade. Dez anos depois e revelam que mantêm o equilibrio excitante e cromático na sua actuação.

Um dos melhores concertos que já assisti!!

Saudações...
Re: Portishead no Coliseu de Lisboa [Reportagem+Fo
por: The.Guide | siga este autor | enviar mensagem privada Sexta, 28 de Março de 2008 às 13:50, 3 pontos
A ultima fotografia está excelente.
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