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António Sérgio - Bicho da rádio [entrevista à BLITZ na íntegra]
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| Leia aqui a entrevista em que António Sérgio comentava as comparações a John Peel e confessava não ter a voz no seguro... |
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O anúncio da sua saída de antena gerou uma onda de reacções, desde figuras públicas como Miguel Esteves Cardoso ao ouvinte anónimo. Surpreendeu-o esse apoio?
Ainda ontem pensei: em 2008 faço 40 anos de rádio. Já não é o bichinho da rádio que morde, já sou eu que sou o bicho da rádio! Todos estes anos a morder as pessoas em relação a uma forma de fazer rádio, ligada à divulgação musical. Senti-me um bocadinho babado com o texto do Miguel Esteves Cardoso. Em rádio, estamos habituados a sentir-nos sozinhos. Sabemos lá se nos estão a ouvir 10 ou 10 mil pessoas. Ao longo dos anos o que percebi é que boa parte das pessoas de determinada idade atribui-me uma boa parte da sua formação musical, do "abrir a orelhinha". O apoio é uma festa no ego, e eu agradeço. Só espero que aquilo que alguns desejavam nas mensagens, que é ouvirem-me noutro lado qualquer, venha a suceder. A força com que eu fazia rádio mantém-se inalterada, e a vontade de descobrir música, enquanto houver saúde e orelhas, mantém-se intacta. E um bocadinho mais refinada, com a idade e a experiência.
Não sente que parte dos que o apoiaram nem sequer sabiam que ainda fazia rádio?
É natural que sim. Os horários em que trabalhei em rádio foram sempre terríveis para quem tem de se levantar cedo. Nos tempos em que certa música era mais difícil - uma boa parte da década de 80 e 90 - havia ouvintes que se davam ao trabalho de gravar para ouvirem ao fim-de-semana e anotarem os nomes. Uma coisa que é tristemente verdade é que a rádio há anos que vai perdendo uma fatia do auditório. Isto não é por acaso - boa parte das pessoas que ouviam rádio para descobrir música arranjaram outros métodos, muito antes dos iPods. Isto é uma facada que eu sinto em mim mesmo - a rádio, para mim, é a primeira-dama. Aquilo que me veio a acontecer é triste para mim, é mau para os ouvintes que ainda me acompanhavam e que não eram assim tão poucos pelo que se vai vendo, mas a emissão em si não correspondia ao mau serviço que a Rádio Comercial ia prestando àqueles ouvintes. As pessoas que a ouvem, ouvem aquilo que nós ouvimos nos supermercados ou na bomba de gasolina.
Quais foram para si os anos áureos da rádio em Portugal?
Os anos dos programas de autor na antiga Rádio Comercial, ainda pertencente à RDP. A rádio era ouvida com uma clubite muito especial. Uma das funções da rádio é espalhar magia: nós não temos cara, temos vozes, e isso ajuda a incendiar o imaginário dos ouvintes. E esta rádio de hoje, coitada, não incendeia absolutamente nada. Põe o ouvinte a um canto e diz-lhe: ouve isto, que não te maça, não te assusta, não te provoca, não te faz comprar discos. Outra verdade: a rádio de hoje não te faz comprar discos; as rádios de autor conseguiam fazer as pessoas ter paixão por comprar música.
Poderá voltar a haver uma rádio desse tipo, na era da Internet?
Quando o BLITZ ainda era jornal, fiz uma entrevista onde dizia que não havia hipótese nenhuma de regresso a uma rádio de autor. Com aquela perspectiva de canal cheio, a jorrar talento por todo o lado, como foi o caso da década de 80. A XFM voltou a pegar naquilo que eu achava que valia a pena: trabalhar para a imensa maioria, levar as pessoas a interessarem-se por artistas que correm o risco de compor, e não copiar. Já passaram [três] anos e hoje não respondia como respondi; hoje acredito que é capaz de haver uma hipótese de os programas de autor voltarem a despontar e singrar. Há um programa na Antena 3 [Prova Oral], com intervenção telefónica dos ouvintes, e cria-se ali o ambiente dos velhos cafés em que se conversava. Apesar de ser um bocadinho tarde para mim, por uma questão de idade, é provável que surjam, em rádios não nacionais e universitárias, [projectos] para estimular as pessoas e não estupidificá-las.
Como se sente quando o comparam a John Peel e Anthony Wilson?
O Wilson foi uma das personalidades gigantes da cena não só de Manchester como da música. O trabalho que ele fez na editora [Factory] foi profundamente fantástico. O Peel é um caso emblemático. Teve aquela sorte das sessões, que lhe davam contacto imediato com o talento quando ele está mesmo a despontar! Além disso, a pessoa que eu conheci era exactamente a pessoa que eu pensava. Não dava importância nenhuma a tudo o tinha feito e dava uma importância enorme a tudo o que iria fazer. Quando o conheci, já tinha 50 e tais - na altura estava a rebentar uma boa parte da música electrónica. Eu não conhecia quase nada e já ele estava completamente dentro da escola tecno alemã. Tanto falava do tecno alemão como dos Four Brothers do Zimbabué.
Tem a voz no seguro?
Infelizmente não. E na última emissão, a 15 de Setembro, os nervos apertaram-me a garganta de tal maneira que a voz falhou completamente: era uma coisa que estava a apoderar-se de mim e que não conseguia controlar. Se não fosse a ajuda da Ana Cristina Ferrão não havia emissão, porque não conseguia falar! Não está no seguro e sobretudo não é à prova de emoções, que foi a minha grande tristeza por ser a minha última emissão na Rádio Comercial.
Rádio no Papel
Enquanto não volta à rádio, António Sérgio quis partilhar com os leitores da BLITZ dois discos:
Bubblegum, de Mark Lanegan
("Foi dos Screaming Trees e trabalhou muito tempo com os Queens of the Stone Age. Tem aquela voz grave, de super-barítono, assustadora") e
Boxer
, dos National. "Por amor de Deus, se alguém deixou passar em claro, tem de voltar atrás. É daquelas grandes obras que vão ficar na história da música popular".
Foto:
Rita Carmo/Arquivo
Lia Pereira, Terça, 3 de Novembro de 2009 às 12:44
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António Sérgio |
Quarenta anos de rádio correspondem a muitas centenas de artistas, divulgados em primeira-mão em programas como Rotação (Rádio Renascença) ou Som da Frente (Rádio Comercial).
Deu a voz pela XFM e voltou à Comercial com Fala da Tribo e As Horas, depois de, na Best Rock, ter apresentado A Hora do Lobo |
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Ao contrário da minha juventude, passada a ouvir o António, esta que existe está-se nas tintas para o que é bom e diferente, sendo consumidores ipodianos de trashpumpum e playlists.
A rádio perdeu o expoente máximo hoje, mas a música perdeu muito mais, pois se até agora quem quis silenciar o AS levava com o descontentamento de muita gente culta e informada, a partir de agora só há lugar para a música pimba, pimbapop e mainstream.
É um dia muito mau para quem gosta do que é bom, péssimo para todos os músicos sérios, terrífico para as prateleiras de música adulta e não comercial, agonizante para os que cá ficam a lutar contra a música de elevador e os programas da manhã/tarde/noite que julgam que todo o povo é inculto e idiota.
Se há o dia de todos os santos, hoje só existe mesmo um.
Bem haja António pelos 3000 cds que tenho ali no móvel. A maior parte foi por causa de ti.
A qualidade dos engenhos tem uma referência, o teu "Rolls Rock" ainda hoje ali está - como uma relíquia infalível: farol que não se extingue.
Depois o Som: o que indo tão à frente, nos levava com ele, em entrega total.
Há palavras que perduram - e com o tom que ainda morde, sob essa voz: "Som da Frente - O direito à diferença".
Tardes de estudo e noites de sono adiadas: um gravador de cassetes tripulado para que os temas fossem identificados mais tarde.
São tantas as canções, bandas, autores, álbuns a que chegamos pelo mapa que desenhas e se escutam agora no "Grande Delta", em recolhimento ou a rasgar, como só no uivo da "Hora do Lobo" se consegue: "Nas Horas": em todas.
Se a rádio, no formato em que hoje se move, não chama; não ensina; não mostra, a rendição de "Viriato XXV" não se torna incondicional: a cada novo achado, fazemos-te chegar, aí, onde quer que estejas, os ecos do que com mestria, nos despertaste a saber explorar, porque aos mestres não se agradece: demonstra-se; em actos, como soubemos colher o que eles, apaixonadamente, apontando caminhos, se preocupavam a que viessemos a aceder e a ser tocados.
A memória, essa, continua viva. Só isso: viva.
Companheiro inseparável, um Philips forrado a pele de cor creme (um rádio AM/FM mono, “portátil” com 4 pilhas de 1,5 V), acompanhado da indispensável “banana” (auricular), tudo pertences de minha avó. Este equipamento áudio era utilizado nas tardes em que as aulas de matemática ou de uma outra disciplina qualquer, coincidiam com a emissão do “Duplo R” ou melhor do “Rolls Rock”. Sentado ao fundo, num canto da sala de aula, junto á janela, sintonizava o rádio, camuflado num grande saco de polyester de cor vermelha que utilizava para guardar o equipamento dos treinos diários de Judo, ao fim da tarde, no Ginásio Clube Português.
Estes momentos fantásticos, substituíam a matemática ou outra disciplina qualquer, António Sérgio ministrava matérias verdadeiramente alternativas.
Abandonado o velho mas cumpridor Philips, outros meios áudio mais sofisticados foram utilizados para manter a proximidade, sempre á socapa dos professores.
Ao longo de anos, segui António Sérgio.
Mais tarde, a família, o emprego, as horas de deitar e levantar, mas António Sérgio e as suas meninas aos gritos (Anne Clark, Laurie Anderson, Lisa Gerard, Liz Fraser, Siouxsie Sou, Virginia Astley, entre outras), era assim que a minha ex-mulher as descrevia, continuavam todos lá para meu gáudio, apesar de “NO AR” cada vez mais tarde, ou talvez cedo demais, para mim. Nessa época já se fazia sentir o “chega pra lá” imposto pelas malfadadas Playlists, pelo que as TDK e as TEAC foram a solução para as emissões tardias. Longe estávamos das plataformas digitais e quem não POD(cast) usava cassetes, as quais ainda guardo com paixão.
Certo dia, na época em que se acentuou o principio do fim da rádio de autor, em Portugal, tomei conhecimento do fecho da XFM e, o consequente silenciar ensurdecedor, do que à data, não se sabia vir a tornar-se uma imensa minoria. Nessa tarde, em que chegávamos ao fim do “Grande Delta”, nessa mesma tarde triste, em que uma vez mais nos subtraíam o nosso homem do leme, sem caminhos alternativos á vista, decidi, ser chegado o momento de dizer a António Sérgio, obrigado!
Se assim pensei, melhor o fiz e, naquele cinzento fim de tarde, durante a última emissão, enviei-lhe umas simples flores ás quais juntei uma mensagem premonitória: “Voltaremos a encontrar-nos no éter”.
No final desse seu último programa, António Sérgio, despedindo-se dos seus ouvintes, disse:
- Parafraseando alguém, voltaremos a encontrar-nos no éter.
Anos mais tarde, e já depois de nos termos encontrado algures no éter, cruzei-me com ele na FIL em Lisboa por ocasião de uma feira dedicada á produção musical. Nesse momento hesitei, fiquei indeciso sobre se deveria aproveitar a oportunidade para lhe revelar que afinal o nosso encontro não fora apenas no éter mas também naquele preciso momento. No entanto resisti. Resisti porque quis fazer perdurar aquele delicioso momento do passado, ainda tão presente em mim.
Decidi que numa outra qualquer oportunidade em que nos cruzássemos, então sim, não mais hesitaria.
Perdi a oportunidade...
A memória de um som,
Nem a escrita o diz: este era da frente,
Turvo, crescido, dissidente,
Feito gente,
Melodia estranha ecoada em tardes
Sombrias e esquivas de chuva,
Dadas à leitura
E à criação de um imaginário.
Devo-te isso:
És parte de mim,
Do que eu sou hoje,
E se tenho em mim
Este dom da recusa, rebelde,
Este sorriso que desconfia
Dos poderes, das podres aparências,
Também tu mo deste:
Nessa música que me fizeste ouvir
E que era um lança-chamas contra o conformismo.
Obrigado António!
E se há dois anos
Te calaram a hora do lobo,
Em mundos mais dados à estatística
E gastos construídos por gente bastarda,
Silenciando a tua voz uivante,
Tu foste e recolheste: às gentes mais preciosas
Que sempre soubeste criar;
Às imensas minorias que até assim se viam
E a quem mostraste
Como é bom fazer parte da margem.
E foi à margem que morreste,
Porque foi nela que viveste.
Se tivesse à minha frente
Todo o som que um dia me trouxeste,
Imensas seriam as gavetas
Onde, por trás dos artistas,
Refractários membros da nossa orgulhosa condição,
Estaria o teu secreto, grave, pesado nome,
Dito nas tardes em que solenemente aparecias.
A única voz da rádio, única mesmo,
Num país decrépito, miserável e mesquinho,
De gente pobre, vazia e mais dada a chacotas de circunstância.
O teu epitáfio foi esse: Foste despedido
Por quem ajudaste a criar
Dois anos antes de bateres com a porta e dizeres:
"Agora quem se vai sou eu!"
O mais nobre adeus, meu caro, te dedico:
Pensando que ouço, como em muitas tardes
Em que me acompanhaste,
A "Saudade" dos "Love and Rockets"!
F.Nazareth
Sófia, 1 de Novembro de 2009
Outra verdade: a rádio de hoje não te faz comprar discos – as rádios de autor conseguiam fazer as pessoas ter paixão por comprar música"
Isto é absolutamente verdade.
Acima de tudo, os programas de autor (pelo menos dos da geração antena 4 / RDP-Comercial) são tratados sonoros de educadores!
Agora, o que sinto em particular, é uma aposta muito pequena na divulgação da rádio via internet.
E isto, porquê? Por força do hábito das prórias rádios em divulgar as suas frequências de transmissão (afinal são "rádios") e praticamente esquecerem as vantagens do multimédia.
O Som Da Frente, é de um tempo em que se estudava e se faziam serões a ouvir rádio.
A própria televisão, terminava as emissões por volta das 01h da madrugada, o que deixava mais espaço para ouvir rádio.
Hoje, os serões, são passados em frente ao computador, nos fóruns, nos chats, nos blogs, nas trocas de e-mails, etc.
Passam-se até serões em sites para trocar audição de música, como o Paltalk e outros.
E é penoso ouvir e ler o que alguns membros desses sites nos mostram...
Passei a ouvir rádio no PC: António Sérgio e a Radar.
E penso que é este potencial que é preciso usar: a internet.
Ouvir António Sérgio em directo ou em podcast gravado, e poder falar e teclar ao mesmo tempo com os amigos, quer num fórum do programa de rádio, quer noutro qualquer lugar!
"Take care" :-)
Grande abraço, António!
PS: fui "o culpado" disto:
http://blitz.aeiou.pt/gen... ew#235679